JORNADAS CIENTÍFICAS DA FLCS 2019 REALIZADAS COM SUCESSO
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Criado em 08 novembro 2019
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Foram realizadas nos dias 17 e 18 de Outubro de 2019 as Jornadas Ciêntíficas da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).
O argumento para a realização destas jornadas foi de que “a produção do conhecimento científico em Moçambique, num contexto neoliberal, torna urgente a partilha das produção científica de investigadores, docentes e estudantes de pós-graduação dos vários cursos ministrados na FLCS-UEM, no âmbito das Jornadas Científicas 2019 e do 1º Seminário de Ciências da Linguagem”.
Durante a sessão de abertura, o Director da FLCS, Prof. Doutor Cláudio Mungoi agradeceu aos parceiros que apoiaram a faculdade tendo merecido destaque particular Professora Maria Paula Meneses da Universidade de Coimbra, que aceitou o convite para ser a oradora principal destas jornadas. Mungoi agradeceu tambem a toda comunidade da FLCS “pelo apoio condicional prestado na organização do evento, no ano em que”, referiu o Director da FLCS, “a nossa faculdade propôs a atribuição do título de Honoris Causa ao patrono da nossa universidade”.
Estas jornadas constituiram um fórum que visava promover o debate e o intercâmbio de saberes, assim como encorajar o estabelecimento de grupos de pesquisa interdisciplinares, suscitando diálogos em torno de eixos temáticos como: Governação Cidadania e Direitos Humanos; Identidades, Género e Sexualidade; Memória, Património Material e Imaterial; Recursos Naturais, Ambiente e Mudanças Climáticas, ESpaço, Território e População; Comunicação, Linguages e Literatura; Hierarquias, desigualdades e Metodologias
Segundo o Director, a FLCS pretende com estas jornadas e o primeiro seminário das ciências da linguagem, sublimar e liderar a produção e disseminação de conhecimento científico no dominio das letras e ciências sociais em Moçambique “na expectativa de virmos a ser referêcia incontornável na região e em África, como centro de excelência e repositório de conhecimento sobre a História a Geografia, a Sociologia, a Antropologia, a Arqueologia, a Ciência Política e Administração Públicas Línguas e a Literatura”, disse Mungoi.
Seguiu-se a intervenção da Profa Doutora Carla Braga, Directora Adjunta para Investigação e Extensão da FLCS e coordenadora das referidas jornadas, que afirmou que mais do que concebidas as jornadas começaram a ser imaginadas e até “sonhadas”. De acordo com Braga, “um termo que de certa forma desestabiliza o cânone ao dar visibilidade e verbalizar o papel do desejo, das emoções nas práticas do cotidiano, sem que por isso as escolhas feitas e as decisões tomadas, fossem menos racionadas, referiu.
Em relação a iniciativa do 1º Seminário das Ciências da Linguagem, Braga sublinha que não lhes pode ser atribuida, uma vez que ela estava já estruturada quando em conjunto com a Prof. Doutora Ezra Nhampoca decidiram que o evento deveria estar integrado nas jornadas sem perder a sua identidade. Carla Braga afirma ainda que as Jornadas visavam ser um espaço de partilha onde das varias áreas de conhecimento podessem se rever. Sendo esta a maior faculdade da UEM acrescenta a antropóloga, “conceber um evento em que todos ou pelo menos grande parte dos docentes e investigadores e docentes da pós-graduação se revisse, constituiu um desafio que tentamos enfrentar porque de alguma forma estava plasmado na diversidade dos eixos temáticos”.
O lema escolhido: tecendo a interdisciplinaridade entre as ciências sociais e humanas tenta enfatizar o entrelançar dos diversos saberes, metodologias e métodos, algo que tentamos captar com recurso com a metáfora do “tecer”.
Ponto alto da sessão inaugural foi a apresentação do tema Questionando a liberdade académica e a relevância dos estudos sociais em Moçambique: pistas para aprofundar as epistemologias do Sul pela Prof. Doutora Maria Paula Meneses investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Numa oração exaustiva Maria Paula Meneses disse que “a interdiciplinaridade já não é um tema interno da faculdade mas é uma forma de pensar a universidade, temos que saber como é que podemos pensar este projecto de produzir conhecimento e dar resposta ao país e como dizia o Prof. Mungoi, como é que podemos de facto levar Moçambique para uma nova etapa”. A oradora explica que quando procurou informações sobre a liberdade académica em Moçambique vieram milhares de documentos, porém afirma que não é uma questão de quantidade mas de qualidade” e sugeriu algumas perguntas como “que tipo de universidade queremos, de onde é que partimos, qual é o significado de universal, o que nos últimos tempos tem sido uma categoria analítica no sentido de que como é que podemos descolonizar a universidade e o conhecimento, sobretudo nos últimos anos em que temos vindo a assistir a uma neoliberalização da universidade e a transformação na universidade em mercado e o que podemos fazer ao falar de universidades públicas.
As questões de Meneses não param por aí a seguir questiona “como é que nós contribuimos como produtores de conhecimento no mundo olhando a partir do Sul não como espaço geográfico mas como uma contribuição epistemológica. Maria Meneses considera que o conhecimento cientifico é uma forma universal do saber mas não é a unica forma de conhecimento”, e que “o problema que temos com isso é que há uma sequência temporal de produção de conhecimento com um projecto histórico associado a ele e depois chega um tempo apartir dos Seculos XVIII e XIX em que ele se torna-se prescritivo “. Meneses acrescentou que “é a partir do facto da ciência tomar forma no atlântico norte e de repente torna-se receita para conhecimento do mundo, é aqui que temos a grande questão, até que ponto grande parte das nossas discussões epistémicas são uma circulação dentro de um universo monocultural que não responde a diversidade de problemas que temos.
Após a palestra inaugural seguiu-se a mesa redonda sobre Paz e (in)segurança com a participação de Stain Habberg, Professor de Antropologia Cultural e Director do Fórum de Estudos Africanos na Universidade de Upasala (Suécia), que apresentou uma comunicação sob o titulo Security from below and local democracy: Anthropological research of troubled times and terrains. No mesmo painel participou Egna Sidumo, Pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade Joaquim Chissano cuja a comunicação apresentada intitula-se Repensando Estratégias para a Construção da Resiliência contra a Violência Extrema no Norte de Moçambique, um tema segundo a oradora, que começou a ser desenvolvido há dois anos a repensar sobre que estratégias que podem ser importantes desenvolver para lidar com a questão dos ataques em Cabo Delgado. Porém Sidumo explicou que a pesquisa, ainda não terminada, é resultado das análises que tem feito do trabalho de campo feito desde o ano passado, embora, não tenha sido feito propriamente em Cabo Delgado mas nas áreas circunvizinhas da provincial de Cabo Delgado.
“Com os resultados”, segue Egna Sidumo “procuramos identificar quais as estratégias que podemos desenvolver para a resiliência, face a violência extrema em Cabo Delgado. A oradora considera que resiliência é um conceito novo e que tem sido discutido com alguns académicos como Yussuf Adam entre outros. A pesquisa procura responder a questões tais como as comunidades reagem em relação ao elementos novos como os ataques extremistas , um elemento sobre o qual nunca tiveram nenhum contacto.
As Jornadas foram marcadas por sessões paralelas e o destaque vai tambem para a participação de Maria Helena de Paula no âmbito do seminário das Ciências da Linguagem que apresentou a comunicação Linguagem, Memória, Cultura e Conhecimento Científico nas Humanidades. Maria de Paula é Licencia em Letras-Português, Mestre em Letras e Linguística, Doutora em Lingusítica e Língua Portuguesa e Pós – Doutora em Filologia e Língua Portuguesa. É professora na Universiadde de Goiás desde 1998. A sua área de interesse é a abordagem interdisciplinar focada em História, Cultura e Língua(gens).
Vale a pena sublinhar a apresentação diversificada de comunicações que revelaram a riqueza da produção de conhecimento na FLCS desde painéis como Estado e Governação que viu Cláudio Mungói a apresentar A Questão Colonial, o Neocolonialismo e a Democracia em Moçambique, Bernardo Essau Bilério e a Descentralização e construção do Estado em Moçambique e ainda Dorca Nhacudime Desvendando Discursos e Práticas Sobre a Descentralização de Água Rural: Caso do Distrito de Boane, 2010-2019 , painél moderado por Sonia Chone da secção de Administração Pública.
Na vertente das Ciências da Linguagem vale a pena ressaltar a produção que constituiu o painél da Linguística-teórico descritiva que juntou quatro grupos de oradores, entre os quais Célia Adriano Cossa com o tema A Africanização das Consoantes Labiais Vozeadas /b, v/ no Changana: Uma evidência do Princípio de Contorno Obrigatório no Bantu, Vasco Magona e Zacarias Quiraque e o Desvozeamento das Oclusivas e Oclusivação das Implosivas dos Nomes das Classes 5 e 6 em Tewe, Armindo Ngunga e Zeferino Maguiane Ugembe em Tom melódico em Citshwa e o Princípio de Contorno obrigatório e por último Gregório Firmino em Ordenamento Social e Concepção de Categorias Linguísticas: O caso das línguas bantu em Moçambique.
Em Política, Conservação e Património houve contribuições de grande envergadura por parte de António Aurélio Matsimbe e a comunicação Os Visitantes do Museu Nacional de Arte, Isléia Rossier Streit em Narrativas da História em Manuais escolares de História em Moçambique, Lurdes Silva e Abudo Machude e Polítuca cultural de 1997: uma reflexão sobre o seu contributo para a sociedade e por ultimo Solange Macamo; Paula Meneses; Omar Madime & Katia Filipe e A conservação do património cultural imóvel em Moçambique: a emergência política do conceito e a evolução da sua aplicação.
As Jornadas Científicas tiveram um total de 18 sessões paralelas realizadas em dois dias nos Anfiteatros 1502, 501, 502 e a Sala Magna da FLCS, esta última que acolheu o Seminário Internacional das Ciências da Linguagem. Participaram cerca de 150 pessoas entre estudantes, docentes, oradores e público em geral. Entretanto actividades relacionadas com as Jornadas extendem-se até Janeiro de 2020 altura em que termina o prazo de submissão de artigos completos para publicação em revista científica.
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