Arquivo Histórico e a Solidariedade de Moçambique para com Timor Leste
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Criado em 08 novembro 2019
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Foi realizada no passado dia 25 de Outubro na Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) uma palestra intitulada O Arquivo Intergeracional de Histórias e a Solidariedade de Moçambique com a independência de Timor Leste cuja oradora foi Marisa Ramos Gonçalves investigadora na área de História pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal.
Na introdução em torno da comunicação, Marisa Gonçalves fez questão de sublinhar a importância do auditório e os demais intervenientes na solidariedade de Moçambique com a independência de Timor-Leste poderem contribuir para o enriquecimento na pesquisa, uma vez que ainda não apresenta resultados finais, e portanto ainda está em construção.
Marisa Gonçalves comecou por fazer um enquadramento histórico e narrou que há história pré - colonial muito longa que é recolhida através de fontes orais que são muito fortes na sociedade timorense e que precede a administração colonial portuguesa. “E Isto é de facto para que se perceba”, disse a oradora, “que há experiências traumáticas de conflito de colonialismo que marca a sociedade timorerense”.
A oradora explicou que há uma chegada de missionários portugueses em 1502, e existe a chegada de comerciantes para aquisição da preciosa madeira de sândalo, na altura muito procurada, mas que uma administração colonial efectiva só começou no seculo 18. Marisa Gonçalves acrescenta que antes da ocupação portuguesa na altura da segunda Guerra mundial, há uma ocupação do Japão que invade vários paises da Ásia e a Australia receava um bombardeamento das tropas japonesas, daí que Timor Leste e a Papua Nova Guiné foram usadas como zonas tampão para não haver uma ofensiva australiana. “O facto é que os Japoneses estiveram lá até 1945, altura em a Administração colonial regressa a Timor” disse a oradora.
Quando o periodo da administração colonial termina em 1975, surge um novo conflito que impede a independência de Timor Leste com a presença da Indonésia que tinha apoio de alguns partidos que defendiam a integração do país à Indonésia, entretanto destaca-se a FRENTILIN que defendia a independência e autonomia de Timor e tinha maior apoio da população na época. No entanto segundo refere Gonçalves, “não houve a possibilidade de concluir a descolonização como na altura Portugal tentou, porque a Indonésia tinha pretensões fortes de invadir Timor Leste”.
Seguiu-se uma invasão violenta com muitas mortes apoiada pelos Estados Unidos da América e a Autrália e inicia uma resistência em várias frentes, as tropas nas montanhas (FALINTIL) uma frente clandestina e outra diplomática e todas essas foram decisivas nesse processo que conduziu para o referendo para a independência em 1999.
Marisa Gonçalves explica que embora os Estados Unidos da América e Australia tenham mais tarde reconhecido a independencia de Timor, apoiaram durante cerca de 24 anos a invasão Indonesa com apoio bélico e militar reconhecendo - a como adminsitrante do território, uma vez que havia interesses em termos de recursos no mar de Timor e fecharam os olhos aos crimes e atrocidades cometidas em território Timorense, “portanto”, prossegiu Gonçalves “se abre a oportunidade com a democratização da Indonésia, o que precipitou a independencia de Timor”.
A Oradora falou de alguns dos seus entrevistados sobre a oportunidade do referendo de 1999 para independencia de Timor, que há testemunhos numa perspectiva de jovens no sentido de que os crimes e a perseguição Indonésa faziam com que realmente o povo timorense não quisesse ser integrado a indonésia, mas para pessoas de uma geração mais velha, a luta pela independência era uma questão que já vinha desde o tempo colonial português, um fio condutor de vontade que se aprofundou numa luta que tem uma temporalidade mais longa, já em Moçambique Maria Gonçalves tem o testemunho de uma exilada que na altura teve a oportunidade de votar aos 17 anos e lembra-se de ter um choque ao encontrar um observador indonésio na estação de voto em Maputo, uma outra perspectiva do mesmo acontecimento histórico.
O que é importante para a historiadora portuguesa é que neste momento não existe uma produção local sobre a sua própria história, embora mostra algumas narrativas oficiais que tem tido um enfoque nos veteranos das forças armadas na sua maior parte homens, e por isso existem iniciativas tambem de participação de mulheres, um desabrochar na apresentação da história numa outra perspectiva.
Entre estas histórias que estão ausentes destaca-se o seu trabalho ainda em construção que envolve a solidariedade de Moçambique para com a independência de Timor apartir de 1975, bem como as ligações pessoais e políticas desenvolvidas entre moçambicanos e Timorenses, unidos em torno da luta contra o projecto colonial, tema que está praticamente ausente na historiografia.
Marisa Gonçalves conta do trabalho já feito sobre a história de estudantes Timorenses que sairam de Portugal foram recebidos em Moçambqiue depois da pressão a Portugal sobre a sua posição em relação a independência de Timor. “Moçambique recebeu alguns desses estudantes aqui na Universidade Eduardo Mondlane, havia essa consciência de preparação de quadros timorenses, para estarem prontos para a nova nação independente, esse conjunto de pessoas vieram viver a Moçambique até 1999”, conta a oradora.
Houve um apoio na formação de quadros, houve apoio da diplomacia, nomeadamente a José Ramos Horta que era um representante de Timor não oficial nas Nações Unidas com o apoio de Moçambique, Angola, Guiné Bissau e os PALOPS, onde andava numa missão diplomática, embora Timor não fosse ainda reconhecida como uma nação. Embora outros países reconhecessem a Indonésia como potência administrante do território, as Nações Unidas nunca reconhecera a Indonésia como tal, em parte, por causa deste trabalho diplomático feito no sentido de manter a questão Timor na Agenda, o que era fundamental e aqui destaca-se o apoio dos governos de Moçambique em financiar e em apoiar até com a concessão de passaportes para os representantes da FRENTILIN viajarem. Gonçalves explica que Samora Machel tinha sempre tinha a questão de Timor sempre presente em foruns internacionais juntamente com outros movimentos na África Austral e a solidariedade com movimentos no Zimbabwe e na África do Sul, a questão do Apatheid e questão de Timor Leste surgiu como uma luta, uma causa pela qual Moçambique se batia, mesmo até no movimento dos “não alinhados” que tem o seu berço na Indonésia em Bantum, ainda nesse forum Samora Machel chama atenção da Indonésia sobre o problema de Timor que existiam irmãos entre os não alinhados, que continuavam a ser explorados, e portanto mantendo –se sempre em posições dificeis em relação a Timor. Com este estudo pretende-se contribuir para memória e património histórico politico e cultural de Timor, para que se ultrapasse a atual fragilidade em termos de registos histórico por historiadores locais em Timor.
Com a organização do Departamento de História da FLCS e moderação de Júlio Machele, docente no mesmo departamento, a palestra teve a participação de docentes, estudantes moçambicanos e timorenses, assim como algumas entidades solidárias para com a independência de Timor-Leste.
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